Como lidar com um familiar alcoólatra?

Os Alcoólicos Anônimos possuem um questionário para avaliar se a pessoa é ou não alcoólica. Veja:

1. Já tentou parar de beber por uma semana (ou mais), sem conseguir atingir seu objetivo?
2. Ressente-se com os conselhos dos outros que tentam fazê-lo parar de beber?
3. Já tentou controlar sua tendência de beber demais, trocando uma bebida alcoólica por outra?
4. Tomou algum trago pela manhã nos últimos doze meses?
5. Inveja as pessoas que podem beber sem criar problemas?
6. Seu problema de bebida vem se tornando cada vez mais sério nos últimos doze meses?
7. A bebida já criou problemas no seu lar?
8. Nas reuniões sociais onde as bebidas são limitadas, você tenta conseguir doses extras?
9. Apesar de prova em contrário, você continua afirmando que bebe quando quer e pára quando quer?
10. Faltou ao serviço, durante os últimos doze meses, por causa da bebida?
11. Já experimentou alguma vez "apagamento" (continuava funcionando sem lembrar mais tarde do que ocorreu) durante uma bebedeira?
12. Já pensou alguma vez que poderia aproveitar muito mais a vida, se não bebesse? http://www.alcoolicosanonimos.org.br/modules.php?name=Conteudo&;pid=3

Contagem: Se a pessoa respondeu SIM a 4 perguntas ou mais, é provável que ela tenha um problema sério de bebida, ou poderá tê-lo no futuro.

O que fazer, então, com este problema, se você convive com alguém assim?

1) Não se consegue convencer um alcoólico que não está abstinente de que ele é alcoólico, porque o alcoolismo é a chamada "doença da negação" , ou seja, o indivíduo vive negando ter problemas com o beber. Diz que sabe se controlar, que bebe porque quer, mas que pode parar a hora que desejar, embora esteja com problemas devido ao abuso do álcool há anos. Ou seja, nunca para com os abusos, nunca se controla de fato. Portanto, qualquer membro da família deve desistir de tentar provar para ele que ele tem problemas com o álcool e deve evitar tentar mudá-lo.

2) O alcoólico só mudará quando ele desejar mudar, quando decidir querer ajuda e começar a dar os passos para a recuperação. E talvez só desejará mudar quando chegar a um fundo de poço.

3) O familiar do alcoólico deve pensar em 3 "c": (a) Eu não Causei isto (o alcoolismo), b) Eu não posso Curar isto, e c) Eu não posso Controlar isto. Se ficar achando que causou ("Será que não fui boa esposa?", "Será que não sou boa filha?", "Será que não fui boa mãe?", “Fui um pai ruim?”, etc.) a tendência é querer expiar a culpa e proteger o doente, o que perpetua e pode agravar o problema. Se achar que pode curar, vai entrar em um estresse grande porque não vai conseguir, se desgastando demais sem resultados. E se achar que pode controlar (jogar bebida fora, misturar com água, pagar contas que o alcoólico não paga, etc.), vai também ficar numa irritação, impaciência, estresse sem fim.

4) Tanto o alcoólico quanto o familiar dele, ambos necessitam de ajuda. O alcoólico pode precisar de ajuda médica além da psicológica e o familiar precisa de ajuda psicológica. Por quê? Porque a doença do alcoólico é o descontrole sobre a ingestão de bebidas alcoólicas com as consequentes complicações, como doenças físicas (neurite, polineurite, doenças do aparelho digestório, má nutrição, cirrose, etc.), psicológicas (problemas graves na família, no casamento) e sociais (perda do emprego, faltas ao trabalho, acidentes de trânsito ou outros, etc.). O familiar precisa de ajuda porque em geral quer controlar tudo, e acaba deixando sua própria vida de lado para ficar cuidando de alguém ou querendo controlar alguém que pode não querer tratamento ou não querer neste momento da vida. A droga do alcoólico é o álcool, e a droga do familiar do alcoólico é o controle. Então, o alcoólico precisa admitir que perdeu o controle sobre o álcool para, finalmente, iniciar um tratamento, enquanto que o familiar do alcoólico precisa entender e perceber que está querendo controlar o incontrolável: a vida e as escolhas de outra pessoa adulta.

5) Quanto ao tratamento, o alcoólico pode procurar os Alcoólicos Anônimos (segundo o Dr. George Vaillant, professor de psiquiatria da Universidade de Harvard, autoridade mundial em alcoolismo, os AA são responsáveis por cerca de 40% da recuperação de alcoólicos no mundo), ou um médico (geralmente psiquiatra) especializado em dependência química e receber ajuda. Dependendo do nível do alcoolismo, do comprometimento físico da intoxicação alcoólica, ele poderá necessitar de internação hospitalar por uns dias para desintoxicação e outros cuidados médicos, para depois integrar-se num tratamento que poderá ser com o psiquiatra ou psicólogo clínico com experiência em alcoolismo e/ou com os AA. Muitos entram em recuperação ao participarem dos grupos de Alcoólicos Anônimos sem necessidade de tratamento médico ou psicológico.

O familiar do alcoólico precisa de ajuda psicológica para aprender a não ficar tentando fazer o impossível para mudar o alcoólico, o que em geral deixa este familiar bem doente emocionalmente, com o que chamamos de "codependência afetiva", que é, em resumo, a tentativa de ficar cuidando do outro de maneira errada de tal modo que deixa a si mesmo de lado também de maneira errada. Agir como codependente junto a um alcoólico (ou outra condição) é sentir-se responsável pelo bem estar da pessoa "esquecendo-se" ou não considerando que cada pessoa adulta é, ou deveria ser, responsável pelo seu (dela) próprio comportamento e escolhas e deve pagar o preço das consequências das decisões que toma.

Geralmente o familiar do alcoólico faz um monte de coisas que não deveria fazer crendo que irá ajudar o alcoólico. Pode ser pagar fiança para ele não ser preso ou tirar da cadeia, dar desculpas mentirosas ao patrão sobre o porque da falta ao trabalho, limpar inúmeras vezes os vomitados dele na casa, pagar internações hospitalares que ele não queria, ir sempre pegá-lo no bar ou caído na rua, pagar contas que ele deveria pagar, etc. Fazendo isto, o familiar somente perpetua o problema, pois estas atitudes de codependência levam o alcoólico a se acomodar na doença.

Existe um eficaz grupo de apoio para os familiares e amigos de alcoólicos que se chama Al-Anon. Neste grupo e com a literatura do Al-Anon é possível aprender a lidar com o alcoólico de uma maneira que realmente o ajudará a se tratar, se ele quiser, e pelo menos ajudará a salvar a vida do familiar codependente, a qual estava sendo destruída pela convivência com este problema sério chamado alcoolismo.

6) O familiar do alcoólico precisa entender que não há garantias de que ele frequentando o Al-Anon ou recebendo ajuda de outra maneira, o alcoólico irá, finalmente, procurar um tratamento para ele. Há alguns que nunca irão se tratar e morrerão das complicações do alcoolismo (cirrose hepática, por exemplo). O parente deve trabalhar com sua própria mente no sentido de aceitar que é impotente diante do problema já que não consegue convencer a pessoa a se tratar. Isto não quer dizer que não deve falar do assunto, incentivando o alcoólico a se tratar. Deve falar, dar algum folheto ou revista que fala de como sair do alcoolismo, se oferecer para levar ao local de tratamento, etc.. Mas não deve fazer isto obsessivamente, nervosamente, insistentemente, controladoramente e sentindo-se responsável pelo que a pessoa faz por causa da doença do alcoolismo que ela tem, ou ficar pagando consultas e internações que o indivíduo não pediu e não queria.

7) O familiar pode aprender a praticar o que os grupos Al-Anon ensinam sobre o que eles chamam de "desligamento afetivo com amor", que, em resumo, é passar a ter uma atitude mais diplomática, mais formal, sem discussões, sem tentar provar nada, sem querer mudar o indivíduo. Ao invés de ficar no controle, o familiar abre mão do controle, “senta no banco do carona”, e deixa o alcoólico pagar o preço de suas escolhas insensatas. Claro que isto significa que o familiar colocará limites quando o comportamento do alcoólico estiver abusivo. Isto pode incluir não pagar as contas que ele deveria pagar e mandar os cobradores falar com ele, não ficar usando o próprio dinheiro para cobrir despesas que o alcoólico deveria assumir (a não ser o básico para a vida dos membros da família), pedir ajuda especializada nos casos de agressão física (delegacia da mulher, delegacia de polícia, advogado, etc.).

Escrito por: Dr. Cesar Vasconcellos de Souza
www.portalnatural.com.br

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Thaís Souza

Psicóloga e Pós-Graduada em Psicologia Familiar. Consultas online autorizadas pelo Conselho Federal de Psicologia. Clique aqui para mais informações.

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